quinta-feira, junho 03, 2004

[00.579/2004]
Ele há dias assim...
Desta vez tive de imprimir para ler. É raro fazê-lo porque, prática de anos e convicção de profissão, sou capaz de entender no ecran e apologista de que estas tecnologias para além da comunicação, informação e conhecimento que suportam, deverão ser meio ecológico.
Mas, de vez em quando é preciso imprimir, para sublinhar, marcar, anotar, tactear as letras, sentir-lhes a textura e entreler para tentar compreender.
Ainda na introdução de um texto, que se não quer extenso porque este é um meio de síntese, a razão das coisas leva a reflectir sobre o porquê das leituras.
Certamente não a é a da concordância, menos ainda a da concorrência na busca de vitória. Concluo que seja pelas razões mais simples: - Pragmatismo, qualidade, tolerância, argumentação, inteligência e cultura.
Não como a escolha das cores que se gosta porque sim, mas pelo alinhar das palavras, da despretensão antropológica, calorenta, por vezes com espasmos de indignação.
Feito o intróito vamos à substância:
O poder local é o elo por excelência dos cidadãos com os seus representantes. Porque mais próximo, porque mais acessível, porque mais comunitário. Tem de ser dotado de meios que lhe permitam actuar e resolver os problemas das populações que o elege. Não o vejo como apropriação partidária dos recursos públicos. Se o for, tem de ser punido, como tudo o que é usado em fins diversos daqueles para que foi criado. Recuso entrar na perigosa conversa de que todos os políticos são maus, incompetentes e perigosos. Na política, na advocacia, na medicina, na antropologia, na sociologia e em todas as outras ciências ou profissões, existe o bem e o mal, o competente e o incapaz, o sério e o corrupto. A política, local, nacional ou internacional é uma forma nobre de servir, é um meio ao alcance de todos, repudiado por muitos que preferem não se envolver para poderem livremente comentar, e prescindem do seu dever de participação na comunidade por comodismo. Primeiro abdicam da participação na construção de soluções e acabam como abstencionistas delegando nos outros o poder das escolhas em que, por sua vontade, se não revêem.
É verdade que se uns são carregadores e outros batedores, também a é que isso não depende tanto da actividade política mas mais da incapacidade de a desenvolver com competência. O cabritismo na política não é maior ou menor do que em qualquer outra actividade e ao carregador não se pede fidelidade mas sim que suporte o peso da carga e a leve para onde lhe for determinado. Do batedor, mais do que uns esgares e intuição leal espera-se conhecimento do terreno, segurança e competência.
O caciquismo está longe de ser uma prorrogativa dos políticos. Que o digam as centenas de milhares de desempregados que o sentiram no tempo em que os pseudo-patrões se enfrascavam nas verbas comunitárias e recheavam as garagens de Ferraris, deixando as fábricas, a ciência e a formação a aguardar para as calendas os processos de optimização.
Os mesmos caciques que choram lágrimas de crocodilo limpadas com as sedas do oriente ou perdendo-se em textos bota a baixo, quase culpando os cacicados de incompetência e incapacidade, atirando o brio de um povo para o lixo da sobranceira superioridade que o facto de serem caciques lhes dá. Tal como os abstencionistas da política, também estes se julgam superiores no juízo do estado das coisas sem nada fazer para que esse estado se altere, não lhes retirem a capacidade de continuar a ser caciques.
Remato no respeito que me merecem os interventores. Os CV's, se verdadeiros, são o espelho de quem os tem. Não lhes compete limpar a imagem de quem reflectem, mas permitem e servem para demonstrar os percursos e o reconhecimento de vidas preenchidas.
De quando em vez é preciso que saiam da gaveta e se escarrapachem na cara de imberbes inúteis que nunca construíram coisa alguma, arrogando-se de políticos sem nunca terem desenvolvido qualquer benefício a favor de quem neles delega. Imberbes saídos das piores escolas da juventude onde acumulam aos defeitos dos mais velhos os novos defeitos da geração que os suporta. Jovens que ainda em crianças, já eram velhos.
Acabando no princípio, caro JPT: Por vezes, "ele há dias", em que, em Portugal, o leio e me sinto estrangeirado. E isso, na terra pátria, custa. Custa muito.
LNT
12:10:00 p.m.
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