sexta-feira, julho 23, 2004

[00.857/2004]
Confrontos apetecíveis
Há mais de uma década que o PS não tinha as suas águas internas tão agitadas. São três, e que três!, candidatos à liderança do partido.
Cada um dos candidatos representa aquilo que o calão partidário denomina por alas. Uma ala mais ao centro e duas mais à esquerda.
Se a ala mais ao centro já é alvo de destrinça, tempo até ao dia da eleição é o que não falta para poder escalpelizar ainda mais esta candidatura, as outras duas candidaturas, que ontem foram assumidas, uma com presença no terreno apenas obedeceu às regras da formalidade e oficializou a candidatura, a surpresa veio de onde as dúvidas ainda pairavam, no que diz respeito ao nome a escolher para encabeçar o projecto de um grupo que já está constituído.
Manuel Alegre, o eterno resistente, assume, pela primeira vez, em três décadas de militância, a candidatura ao lugar de Secretário-Geral.
Confesso que prevejo uma disputa intensa. O que é óptimo para o PS e para a política portuguesa. Haverá, finalmente, em Portugal, assim espero e desejo, um confronto que não se resume a um mero confronto de pessoas, mas sim de ideias e concepções. Será, julgo, uma eleição recheada de confrontações ideológicas no campo do socialismo democrático.
Se uma candidatura é conotada como a regeneração de uma política vitoriosa da esquerda democrática a nível europeu, de meados da década de 90 do passado século, as outras duas candidaturas bater-se-ão num espaço puro e duro da esquerda.
Pode haver sobreposição de linhas programáticas. Aliás, quer Sócrates quer Soares já agitaram a bandeira da "Agenda de Lisboa". Mas, é entre Soares e Alegre que determinadas questões serão interessantes de observar, nomeadamente o que querem para o PS, caso sejam eleitos, visto que estes dois candidatos têm afinidades ideológicas mais próximas do que o outro candidato à liderança.
Recordo-me de uma capa do "Expresso" de há uns anos. Havia um cartoon, em que um personagem, Mário Soares, retirava da sua cara uma máscara, a de Manuel Alegre, como que dizendo: Soares está distante do partido, mas Alegre é a sua voz no PS.
A amizade dos dois não termina, lá por o fundador histórico apoiar, naturalmente, o filho. Termina, isso sim, o mito, de Alegre ser uma marioneta de Soares no PS.
A serenidade é desejada, assim como o calor da discussão.
O PS tem uma excelente oportunidade para prestar um serviço à política nacional, se conseguir que elevar a confrontação de projectos e excluir do debate os indesejáveis e fúteis ataques pessoais.
CMC
2:14:00 da tarde
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