segunda-feira, julho 18, 2005
 [0.970/2005] Leituras dominicais
O texto da autoria do Ministro da Fazenda publicado hoje no Público (serviço pago) teve mais repercussão do que outro artigo publicado no mesmo jornal da autoria do cronista dominical Barreto. Se o artigo do responsável da Fazenda ganha dimensão pela função pública do autor, o conteúdo do artigo do sociólogo é, do meu ponto de vista, de maior interesse para o país. No diálogo escrito entre Barreto e Pulido Valente, em torno das elites portuguesas, em que cada um martela na sua chapa, as palavras do Ministro são autêntica chuva no molhado. O artigo do Ministro quer comprometer-se com tudo e, ao fim e ao cabo, não se compromete com nada. Descrições, intenções e comprometimentos vagos. Pode, nas entrelinhas, descortinar-se algum aviso de mais aperto - o que não é novidade, tendo em conta a situação nacional. As linhas do Ministro referem-se a conjunturas, há muito repetidas na boca ou pena de outros intervenientes (com a mesma função). E, pelo andar da carruagem, este Ministro num destes dias sai e outros virão dizer o mesmo. Já as linhas de Barreto referem-se a um problema estrutural. Entre o tema do Ministro e o do sociólogo é preferível ter em consideração a questão estrutural. Porquê? Porque, como assinalou Pulido Valente, Portugal não tem elites. Ora, uma sociedade sem elites é uma sociedade sem cérebro. Logo, uma sociedade sem cérebro é uma sociedade que não pensa, vegeta. Barreto crê na existência de elites. Escreve, a dado momento: "as elites, na minha visão pedestre, são simplesmente os grupos dirigentes que, por uma ou outra razão, se destacam". Parece-me que Barreto incorre numa leitura pouco correcta e confunde elite com oligarquia. De facto, em Portugal, temos muitos oligarcas, como em qualquer sociedade, mesmo na mais anárquica. Temos oligarquias nos partidos, nas empresas. Mas elites, essas se existem, estão tapadas ou então, por que não equacioná-lo, amarradas pelas oligarquias. As oligarquias nacionais não têm estratégia, têm interesses próprios. E os interesses próprios não são interesses nacionais. Continuamos à deriva. Por isso, o conteúdo do texto do titular da Fazenda, que é de matéria instrumental, passa a essencial no presente contexto nacional. O acessório continua a determinar o ritmo nacional. Deste modo, continuamos a debater o défice nos próximos anos. Pois não há equação que nos valha para assolar o défice. Em Portugal, infelizmente, o défice continua a ser maior nas pessoas do que nos números. Estes apenas reflectem o que as pessoas fazem. E não o contrário, como procura patentear o modelo nacional em voga, de tudo centrar nos valores do défice. CMC
12:01:00 da manhã
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