sexta-feira, julho 29, 2005
 [1.021/2005] Os bois pelos nomes
Caro Manuel, Não sou dos que digo cobras e lagartos de Cuba só porque sim. Mas, também não sou daqueles que embarco em ilibações do regime de Havana. Assinala, e bem, a erradicação do analfabetismo e as garantias de saúde do Estado cubano. De facto, tal sucede e deve-se à ditadura comunista, não à de Fulgêncio Baptista (que fez da ilha um enorme bordel). Aliás, como me disse, e bem, há uns anos, uma pessoa amiga mais de direita que a própria direita, tomara muitos Estados América Latina estarem na situação de Cuba, principalmente pelos motivos que referiu: Educação e Saúde. No campo da Saúde, Cuba é, na realidade, a ilha que tem os melhores especialistas do mundo nas áreas da oftalmologia e da ortopedia. Quanto ao desporto, que não referiu e podia estar incluído no nosso diálogo, como qualquer antiga potência comunista (e actualmente no caso da China, mas as potências democráticas, como os Estados Unidos, também fazem do desporto um meio de disputa política), os cubanos foram e ainda são bons em algumas modalidades. Foram com Sottomayor, no salto em altura, são-no, actualmente, no caso do voleibol, quer masculino quer feminino. Portugal até beneficiou dessa escola de voleibol, quando há poucos anos teve um seleccionador cubano que conseguiu conduzir a equipa nacional a patamares nunca antes atingidos. Porém, se isto deve ser dito e tido em consideração, também não pode ser escamoteado o regime castrista. Uma ditadura. Um regime que submeteu e submete milhares de pessoas ao silêncio e já eliminou pessoas pelo facto de apenas terem ideias diferentes do regime. Aqui sim, reside o pomo da nossa discórdia. Pode apresentar todos os motivos possíveis e imagináveis, mas não pode apagar uma ditadura que submete Cuba e os cubanos a um atraso, por causa da ditadura. Creio que Cuba, caso fosse uma democracia, espero que o seja em breve, poderia ser uma referência modelo para a América, tal como o Chile democrático o é. Quanto à Venezuela, praticamente não consigo vislumbrar, no seu artigo, qualquer defesa do actual líder. Até porque deve ser difícil encontrar pontos credíveis de defesa. Se antes a Venezuela estava submetida, importa dizer, a uma rotatividade partidária podre, agora a Venezuela vive sob domínio de um democrata que merece todas as reticências possíveis. Descanse que não estou a fazer uma defesa intransigente dos Estados Unidos. Que têm, também, as suas culpas no cartório. (Aliás, qual é o Estado santo no mundo? Nem o Vaticano.) Porém, reconheça-se, entre o regime norte-americano e os dois Estados referidos, há enormes e substanciais diferenças, como reconhecerá. E entre os três, medite sobre a questão, de em qual gostaria de viver. Ou, pelo menos, onde teria condições de viver condignamente. (A não ser que seja protegido do regime.) A outra questão, e central, do meu texto sobre a televisão de propaganda e o que ela representa e pode significar na América latina, deve-se não tanto ao senhor de Havana, que não estará no poder muito mais tempo, deduzo, não lhe desejo a morte (sublinhe-se), como a ninguém, todavia o avançado da idade não é um benefício, mas refiro-me ao senhor de Caracas. Se não notou, constate como está hoje a pobreza na Venezuela, que não é de agora. E recorde, quando a eliminação da pobreza era prometida por esta liderança pseudo-biblista-bolivarista há anos. Até agora, pobreza erradicada? Nem a ver. E, por outro lado, verifique como o poder de Caracas tem incentivado à instabilidade na parte noroeste do continente sul-americano. Pensa que é apenas desestabilizações interna de certos Estados da América do Sul do lado do Pacífico? Não sejamos de todo ingénuos. Respeito a difusão de ideias, afinal que sentido democrático teria? Só se fosse um daqueles ditos democratas da Alemanha de Leste, que baseava a legitimidade da democracia do regime de Honecker no nome do país: República Democrática Alemã, mas que de democrata, só mesmo o nome e até o nome merecia inúmeras dúvidas. Oponho-me, isso sim, às ideias que considero nefastas e que contêm em si um germe de populismo e demagogia. Faz parte da democracia. Uns condenam, como eu, outros, pelos vistos como o Manuel, apoiam. Temos os nossos direitos de manifestar. Estamos e vivemos em democracia. Certo que, porém, se estivesse em Havana, ou, provavelmente em Caracas, o Manuel poderia continuar a expressar o seu ponto de vista, de apoio, e eu não. Já notou a diferença? Finalmente, devo dizer-lhe, em resposta ao título do seu texto, que a televisão não é dos pobres, mas dos políticos que se alimentam da pobreza dos seus Estados. CMC
2:53:00 da manhã
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