segunda-feira, novembro 21, 2005
[1.625/2005] Diferenças e preocupações
Caro Pedro, Devo dizer-lhe que gostei de ler a sua prosa e comprovar a sua sinceridade. Versando nós sobre política, subjaz ao assunto, quase sempre, a lógica do poder. No caso do Pedro, pelo que deduzo, e corrija-me se estiver errado, esta lógica não é de todo a principal, na medida em que se considera uma pessoa "de fraca ambição eleitoral" e "habituado a perder". Como sabe, em política, os partidos apresentam-se para conquistar, exercer e manter o poder. Quem não entra neste campeonato, disputa o campeonato tribunício. Posição cómoda, normalmente situada nos extremos. Quem ocupa esse espaço do espectro político assume posições políticas fáceis. Como o exercício do poder não se equaciona, equacionam, legitimamente, os tribunícios, o poder. E, muita das vezes, para não dizer sempre, confrontam o poder da forma mais irresponsável. São as regras, neste caso inexistentes, que tudo permitem, como apresentar e defender um modelo amputado de sociedade. Argumentam: basta fazer isto, para atingir aquilo. Tudo parece fácil, tudo parece simples. Porém, a realidade comprova o oposto. Sabemos que as promessas dos extremos são pouco credíveis, por seccionar parte da sociedade. E a aplicação de grande parte das propostas, pelo menos as grandes bandeiras políticas, se levadas a cabo, rapidamente conduziriam um país para o mais fundo e recôndito espaço de um fosso. Encontrando e acusando um bode expiatório, dos males da Nação, O extremo, à direita, condena a imigração; à esquerda, encontra-se o bode expiatório nos capitalistas. E, cada um, à sua maneira, explora um nicho da sociedade. De um lado, procura-se criar a sensação, ao cidadão nacional, que o estrangeiro está na sua terra para lhe roubar o lugar. Do outro, insta-se, principalmente, nas camadas menos favorecidas, que o rico enquanto não for derrubado está a roubar-lhe o bem-estar. Ambos os extremos nivelam a sociedade por baixo e ambos procuram acentuar clivagens. É política. É o estilo tribunício no seu melhor. Pretende-se conquistar mais apoio jogando parte da sociedade contra a outra, seja pelo bilhete de identidade da carteira ou pelo recheio monetário da carteira. Por isso, regressando ao que nos traz a estes escritos, caro Pedro, tenho, naturalmente de concordar consigo. O político francês por quem nutre simpatia é coerente. Ele afirma sempre o mesmo e condena, politicamente, sempre os mesmos. Por outro lado, como assinala, e bem, trata-se de um nicho eleitoral de seis milhões de pessoas. Muitas delas descontentes com a sua França natal, que não lhe proporciona as comodidades de outras décadas, e, de certo modo, votaram, em 2002, num político com um discurso fácil e imutável ao longo das décadas e com uma intervenção que ia ao encontro da ansiedade de milhões de franceses. Há vários meses que este eleitorado apetecível tem sido aliciado pelas políticas do Ministro bastonada. Parte da direita do UMP apropriou-se da intervenção política que tinha sido, até então, domínio quase exclusivo do partido por quem nutre simpatia. Pois, o original e a cópia de que refere com pertinência no seu escrito. Apesar do Pedro relativizar, e bem, as sondagens, obsessão de muitos políticos, penso que não deverá ter motivos para as inquietações que levanta, pois o candidato derrotado da segunda volta das presidenciais francesas de 2002 apresentará a sua candidatura em 2007. Seria obtuso colocar qualquer obstáculo, por parte do poder, político ou judicial, a uma candidatura que, se não surgisse no boletim eleitoral, viria reforçar, como efeito oposto, a presença e as propostas políticas do candidato excluído. Se o Pedro está tranquilo quanto à possível e previsível derrota do candidato por quem nutre simpatia em 2007, eu, pela parte que me toca, como europeu, sentir-me-ei incomodado se a França tiver como Presidente o Ministro bastonada. A Europa não precisa de políticos, no poder, que actuem com insultos e bastões, quando a sua vontade não é satisfeita. E aqui, caro Pedro, voltamos à questão crucial: o poder. Podemos discorrer sobre as virtudes e os defeitos dos tribunícios, mas no âmago, o que mais importa, é o exercício do poder, o que determina. CMC
8:02:00 a.m.
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