terça-feira, agosto 01, 2006
[0.901/2006] O mérito dos estrategos de Teerão
Do correcto e interessante debate que se estabeleceu na caixa de comentários do texto 899, devo referir que concordo com vários pontos do Max e divirjo de alguns. Israel assumiu uma postura demasiado ostensiva, tendo por base o rapto de soldados? Isolando a questão sem qualquer outra leitura, a resposta óbvia é: sim. Se tivermos em conta o quadro global, e não o podemos deixar de ter: não. Sabe-se que mais vale prevenir do que remediar. Porém, neste momento, Israel já não está a prevenir, está a tentar remediar. Seis anos depois de ter saído do sul do Líbano, o Hezbollah armou-se e preparou-se para um conflito com o Estado de Israel. A Resolução do Conselho de Segurança não foi minimamente cumprida. Qualquer pessoa sente-se chocada com as imagens de destruição e mortes no Líbano, mas do mesmo modo que o nosso lado emocional se aflige e atemoriza, o lado racional não pode perder pé. É preciso ver para além do espelho. O Hezbollah, se não é travado, tornar-se-á uma ameaça ainda mais instável para a região. Não só para Israel, no curto prazo, mas também para muitos líderes políticos de Estados árabes a médio prazo. Refere, e bem, o Max, os virginais políticos israelitas. Recordo-me de na altura da formação deste Governo israelita ter referido que muito iria mudar, pois pela primeira vez o poder seria exercido por pombas e não por falcões. Nota-se que faz falta a Israel, neste complexo momento, um político como o ex-Primeiro-Ministro. Israel precisa de um poder político com experiência militar e, também, raciocínio diplomático. Parece-me que esta posição abrangente não é completamente garantida pelos actuais líderes israelitas. Temos tido a oportunidade de constatar, sobretudo no início do conflito, como o poder político anda a reboque do militar, e não o inverso, como sucedia e devia acontecer. Quanto aos Estados Unidos, referido num comentário, a superpotência está de mãos e pés atados. Os erros da sua estratégia no Iraque prendem presentemente a diplomacia norte-americana, na região e no mundo. Como se comprovou há dois dias, o pedido de cessar-fogo urgente pedido pela a Secretária de Estado foi infrutífero. Este cessar-fogo pedido por Washington deve-se às proporções que o conflito está a provocar nos países da região e em especial nos aliados de Washington, que se encontram numa posição delicada. Têm de condenar os ataques de Israel, de modo a estar sintonizados com o desagrado das suas populações, mas não podem, de modo nenhum, apoiar a posição do Hezbollah. Grupo com o qual nenhum tem afinidades. Pelo contrário, representa uma ameaça às lideranças políticas. Não haja dúvidas que os estrategos de Teerão têm mérito na actual situação. Inviabilizaram o referendo palestiniano, que reconheceria o Estado de Israel. Desviam as atenções do processo nuclear, pois os reparos centram-se no Líbano. E, aos poucos, Teerão vai conquistando apoio no mundo árabe, numa procura e acentuação óbvia de clivagem entre ocidente e mundo árabe. Teerão pretende tornar-se como a referência de todo o mundo árabe. Por mais paradoxal que pareça nos dias que passam, e depois do sucedido nos últimos três anos, a este hora alguns senhores em Washington devem ter saudades do ditador de Bagdad, o tampão do expansionismo de Teerão na região. As voltas que o mundo dá! CMC
1:23:00 p.m.
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