quarta-feira, janeiro 10, 2007
[0.039/2007] Entre o exercício do poder e o refastelamento no sofá
Nestes últimos dias, de breves conversas com alguns camaradas que encontrei, noto um denominador comum a leituras que algumas pessoas amigas têm sobre a política em geral. E, de certo modo, começo a perceber melhor porque muita gente na esquerda detesta Blair - infiro, pela linha de raciocínio que apresentam. Directa ou indirectamente, trata-se de uma questão de poder. Há ainda quem se sinta desconfortável com o apoio ao poder. Há quem prefira ser oposição, pela oposição. Assim, não se assume responsabilidades. É mais fácil criticar do que o construir. Não assumir, do que ter responsabilidades. Há quem diga e propale que quer mudar o mundo, mas sempre no conforto do seu sofá, numa verborreia que expressa como terminam as desigualdades, assim e assado, que a pobreza era erradicada de um modo, e que um mundo perfeito seria alcançado. Qual receita condenada a deixar tudo como está, ou pior. Ora, o mundo só se muda, principalmente, quando exercido o poder, não refastelado numa posição de treinador de bancada do "faço e aconteço". O apoio ao poder não passa pela subserviência nem pelas palmadinhas nas costas, mas pela frontalidade e responsabilidade de opções. É tempo de algumas pessoas de esquerda perderem preconceitos com o exercício do poder, pois estamos em Democracia, e em democracia a maioria escolhe o que entende ser melhor para si e para o seu país. Regressando a Blair, o que devia ser um orgulho para a esquerda democrática, é compreendido como uma vergonha, como se na oposição algo de significativo se mudasse na sociedade. E como se a escolha, por três vezes, como os britâncios optaram, pudesse ser considerada como um sacrilégio. Entre o sofá que apregoa mudar o mundo e o exercício do poder na procura de uma sociedade mais justa, sem sombra de dúvidas, a última. Há quem na esquerda prefira não ter responsabilidades nem assumi-las, pois não se sente bem (traumas de outras décadas? quem sabe!?). Também por isto, mas não só, caro Francisco, os novos rostos do socialismo europeu trazem uma lufada de ar fresco. O poder não é, não pode ser, uma ambição pessoal. O poder serve para não deixar as coisas como estão, injustas e insatisfatórias, para todos nós, assumindo uma perspectiva optimista, mais característica da esquerda. O exercício do poder é legítimo e indispensável, se de facto se quer mudar alguma coisa. CMCEtiquetas: cmc, GB, Política Internacional
3:28:00 p.m.
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